26/06/2014

Um conto sobre a vida

Tocava uma música no rádio da moça do apartamento ao lado, era Domingo e eu queria dormir. Há dias eu não dormia direito, trabalhava demais. Só me restava o Domingo. E aquela moça, que eu nem conhecia, não me deixava dormir.
Virei de um lado pro outro, coloquei os travesseiros na cabeça, mas nada adiantava. Eu estava disposta a levantar, a bater na porta, queria falar o quanto ela estava me incomodando. Queria falar que eu precisava dormir e ela não deixava.
Catei a primeira roupa que me apareceu e levantei. Cheguei na porta e bati com força. Então um rapaz com uma criança no colo me atendeu, com cara de aflição perguntou o que eu queria.

- Olha, acho que você e sua esposa estão ouvindo o som um pouco alto demais, é Domingo e é muito cedo. Isso estar incomodando a mim.

O rapaz me olhou ainda mais assustando que antes e então falou:
- Moça, sinto muito. É que minha filha só dorme com música, mas hoje não sei o que houve. Ela está doente e não fica bem de forma alguma, já dormiu pouco a noite inteira. E agora pela manhã piorou.

Eu fiquei confusa, sem entender a expressão do rapaz. Mas ainda irritada falei:
- Entendi. Então mande sua esposa arranjar outro jeito de cuidar da menina. Inventem, mas desliguei esse som por favor.

Os olhos do rapaz olharam o chão e ele falou com a voz muito baixa que mal dava para ouvir:
- Não tenho esposa. Sou só eu e ela, ela fica na creche e a pego no fim da tarde quando saio do serviço. Mas ultimamente tenho trabalhado bastante e ela crescendo. Estou ficando mais confuso e cansado para cuidar dela. A mãe dela faleceu uma semana depois que ela nasceu e eu não tenho família aqui, a família da mãe dela não nos aceita e por isso sou só eu e ela. Essa semana ela adoeceu e os cuidados ficaram mais delicados e eu estou completamente perdido. Eu não sei como agir, as vezes, e tudo que faço é o que acho melhor pra ela, ando me desdobrando em mil para suprir tudo que ela precisa, não sou suficiente mas sou o que ela tem. Meu amor, meu carinho e meus cuidados são tudo o que tenho para doar à ela. E espero conseguir fazer isso de forma que a supra de necessidades básicas. Desculpe por incomodar você tão cedo, apenas quis a confortar da forma que ela gosta e que eu sei. Não tive noção que estava alto demais, mas é que na forma que aumentei o volume ela relaxou e adormeceu, mas acabou de acordar agora que você bateu na porta. Mas não vou incomoda-la mais, moça. Vou desligar o som e tentar acalma-la de alguma outra forma, sinto muito.

Meus olhos estavam rasos de água. O rapaz estava num misto de medo, tristeza e desespero. A garotinha, de pouco mais de dois mês me aparentava estar alerta, mas com semblante adoecido.
Eu não consegui emitir uma palavra ao menos, meu coração estava em pedaços e eu nem sabia como agir, me desculpar nem era suficiente. Mas assim mesmo fiz, falei mais algumas coisas em forma de me desculpar.
Voltei pra casa e só ouvi o som muito baixo tocando alguma música que minha mente não processou qual era. Eu só conseguia pensar como o ser humano era individualista quando tem tudo o que almejou e como ainda é mal agradecido. Quantas vezes  reclamei que meu apartamento era pequeno, meu salário que faltava quando saia todos fins de semana para beber, como era ruim ter que trabalhar aos sábados, como era chato ter que cozinhar ou arrumar a casa sozinha. Como não valorizamos o que temos, e só quando perdemos é que vemos que poderíamos ter dado o devido valor.
É impiedoso e cruel reclamar por besteiras, besteiras essas que podem ser revertidas. Se você tem seu lar, sua comida, seu trabalho e sua família, você é rico.
O que faz riqueza não é dinheiro em excesso e sim amor em excesso!
Aprenda a valorizar as pequenas coisas da vida, as lindas borboletas que vem ao seu jardim, antes que elas batam asas e nunca mais voltem.


1 comentários:

  1. Seu poema finalizou os pensamentos que formei essa tarde. Obrigado!

    ResponderExcluir

 
Book e Cofee Copyright 2014 ©
Designe By
- Kris Monneska Conversas de Alcova